1 Coríntios: Capítulo 6 (versículos 1–20) de Pedro
Amsterdão
Se algum de vocês tem queixa contra outro irmão,
como ousa apresentar a causa para ser julgada pelos ímpios, em vez de levá-la
aos santos? (1 Coríntios 6:1)
Paulo ficou chocado ao saber que os cristãos de Corinto estavam levando
questões com outros crentes aos tribunais. Julgava inconcebível que seguidores
de Cristo resolvessem disputas legais entre si diante de juízes injustos, em
vez de diante dos santos. Com certeza, às vezes, os crentes têm
desentendimentos legítimos entre si que necessitam de um julgamento legal, mas
Paulo se espantava que os cristãos levassem essas questões a juízes descrentes.
Vocês não sabem que os santos hão de julgar o
mundo? Se vocês hão de julgar o mundo, acaso não são capazes de julgar as
causas de menor importância? Vocês
não sabem que haveremos de julgar os anjos? Quanto mais as coisas desta vida! (1
Coríntios 6:2–3)
Com um tom de sarcasmo, o apóstolo questiona se os coríntios haviam se
esquecido de que os santos julgarão o mundo. Jesus ensinara que
Seus seguidores agirão como juízes no fim dos tempos (Mateus 19:28, Apocalipse 20:4) e, para Paulo, isso indicava que a igreja deveria ser capaz de
resolver essas questões internamente.
Ele também lembrou aos coríntios que os crentes julgarão anjos, pois, na
volta de Cristo, os que O seguem julgarão os muitos anjos que se rebelaram
contra Deus (2 Pedro 2:4). Sendo
assim, os crentes de Corinto deveriam ser capazes de lidar com casos de menor
gravidade.
Se vocês têm conflitos legais, por que levá-los
para fora da igreja, a juízes que não fazem parte dela? (1 Coríntios 6:4 NVT).
Paulo não via sentido em os cristãos de Corinto, aqueles com o status de
“santos”, o povo santo de Deus, buscarem a justiça de pagãos ou descrentes, e
levarem suas queixas a magistrados que tinham pouca ou nenhuma influência na
igreja, ou sequer conheciam Cristo.
Digo isso para envergonhá-los. Acaso não há entre
vocês alguém suficientemente sábio para julgar uma causa entre irmãos? Mas, em vez disso, um irmão vai ao
tribunal contra outro irmão, e isso diante de descrentes! (1 Coríntios
6:5,6)
Paulo inferiu que tal sabedoria existia entre os crentes, mas os
coríntios não conseguiram identificar uma pessoa assim. Em vez disso, estavam
fazendo o impensável: recorrendo à justiça uns contra os outros, e fazendo isso
diante de incrédulos.
Havia dois problemas: primeiro, os cristãos estavam apelando para a lei
em disputas civis entre si; segundo, processavam uns aos outros diante de
descrentes. Paulo destacou que a lei secular, promulgada por não crentes, era
inferior à sabedoria de Deus para julgar disputas entre irmãos na fé. Os
cristãos são irmãos e irmãs; fazem parte da mesma família espiritual, e esse
vínculo deveria superar seus desentendimentos, mesmo quando são prejudicados ou
enganados.
O fato de haver litígios entre vocês já significa
uma completa derrota. Por que não preferem sofrer a injustiça? Por que não
preferem sofrer o prejuízo? Em
vez disso vocês mesmos causam injustiças e prejuízos, e isso contra irmãos! (1
Coríntios 6:7,8)
Paulo expressou sua consternação quanto às ações judiciais civis que os
crentes estavam movendo uns contra os outros. Os processos públicos entre
cristãos prejudicavam o testemunho e a reputação da igreja. Os cristãos de
Corinto se prejudicaram mais ao ferir a igreja dessa maneira do que ao serem
prejudicados por outros cristãos. Independentemente do veredito no tribunal, os
cristãos já teriam sido derrotados simplesmente ao se envolverem no processo
legal.
Ter processos judiciais entre membros da igreja mostrava que os
coríntios haviam perdido de vista os princípios pelos quais deveriam viver como
cristãos. Cristo ensinara aos membros da igreja a se amarem mutuamente. Se
vocês de fato obedecerem à lei do Reino encontrada na Escritura que diz: “Ame o
seu próximo como a si mesmo”, estarão agindo corretamente. (Tiago 2:8). Cristãos devemservir uns aos outros (Gálatas 5:13). Todos os que creem devem viver em harmonia (Efésios 4:16). Por essas razões, seria geralmente melhor ser prejudicado ou enganado
do que lutar uns contra os outros.
Os coríntios não apenas erravam ao exigir justiça e compensação, mas
também falharam em seguir o ensinamento de dar a outra face. Não
resistam ao perverso. Se alguém o ferir na face direita, ofereça-lhe também a
outra (Mateus 5:39). E, se alguém quiser processá-lo e tirar de você a túnica,
deixe que leve também a capa (Mateus 5:40). Eles eram transgressores que se enganaram e prejudicaram uns aos
outros.
Vocês não sabem que os perversos não herdarão o
Reino de Deus? Não se deixem enganar: nem imorais, nem idólatras, nem
adúlteros, nem homossexuais passivos ou ativos, nem ladrões, nem avarentos, nem
alcoólatras, nem caluniadores, nem trapaceiros herdarão o Reino de Deus. (1 Coríntios 6:9–10).
Paulo os lembra daqueles que não herdarão o reino de Deus: os injustos,
os ímpios e os transgressores. Ele dá exemplos daqueles que são injustos e os
identifica pelos pecados que cometem e aceitam. A maioria desses pecados era
comum na cultura grega e romana da época.
Ele menciona os pecados sexuais: (1) aqueles envolvidos em relações
sexuais antes do casamento ou extraconjugais; (2) os idólatras, incluídos
devido à estreita associação entre imoralidade sexual e muitas religiões pagãs;
(3) os adúlteros, aqueles que têm relações sexuais fora do casamento; (4)
homens que se prostituíam, que serviam em rituais religiosos pagãos e
praticavam relações homossexuais.
Essa lista de pecados é muito semelhante ao que diz em 1 Coríntios 5:10-11. Paulo sugeriu que os crentes que assim viviam deveriam avaliar se
estavam realmente na fé e destacou a tolice de levar processos judiciais diante
desse tipo de pessoa, já que indivíduos ímpios como esses não poderiam julgar
corretamente entre cristãos.
Assim foram alguns de vocês. Mas vocês foram
lavados, foram santificados, foram justificados no nome do Senhor Jesus Cristo
e no Espírito de nosso Deus (1
Coríntios 6:11).
Muitos dos crentes de Corinto haviam vivido vidas pecaminosas, mas foram
lavados, purificados de seus pecados através da fé em Cristo e declarados
inocentes diante de Deus. Foram separados do mundo e entraram em um
relacionamento com Deus. Essa bênção chega aos crentes em nome do
Senhor Jesus Cristo, quando O invocam e confiam nEle para sua salvação. Ela
também vem pelo Espírito do nosso Deus, à medida que o Espírito
aplica a obra de Cristo aos crentes.
“Tudo me é permitido”, mas nem tudo convém. “Tudo
me é permitido”, mas eu não deixarei que nada me domine (1 Coríntios 6:12).
A frase “Tudo me é permitido” é usada por Paulo em outras partes
desta carta (10:23). Aparentemente, esse ditado,
que provavelmente era um slogan comumente utilizado pelos coríntios da época,
era empregado para justificar diversas atividades ilegítimas. Neste caso, ele
era usado para apoiar a imoralidade sexual; mais tarde, é referido no contexto
do consumo de carne oferecida a ídolos.
Paulo contestou o slogan com duas respostas. Por um lado, salientou que
nem tudo é benéfico. Por mais livres que fossem, os crentes deveriam
condicionar suas escolhas ao benefício espiritual que produziriam. Muitas
práticas, embora lícitas para os cristãos, teriam um efeito negativo na
caminhada do crente com Cristo, na vida de outros ou na igreja. Isso deve ser
levado em consideração sempre que os crentes ponderarem sobre um curso de
ação.
Paulo também afirmou que não seria dominado por nada. Os
apetites sexuais são bons e saudáveis no contexto do casamento. No entanto, os
coríntios haviam se tornado vítimas de seus próprios desejos. Eles perderam o
controle de seus corpos ao se entregarem à imoralidade sexual. Seus desejos
sexuais os dominaram. Os crentes em Cristo devem ser livres dos desejos
mundanos para que possam servir ao Senhor com fidelidade.
“Os alimentos foram feitos para o estômago e o
estômago para os alimentos”, mas Deus destruirá ambos. O corpo, porém, não é
para a imoralidade, mas para o Senhor, e o Senhor para o corpo (1 Coríntios 6:13).
Este segundo slogan usado para justificar a imoralidade sexual também
provavelmente era um lema popular da época. Pela resposta de Paulo, parece que
os coríntios se apropriaram dessa expressão da cultura ao redor para
racionalizar a ideia de que os desejos sexuais deveriam ser saciados, assim
como a comida foi feita para ser comida. Segundo esse raciocínio, eles defendiam
a imoralidade sexual como o curso natural da biologia—um desejo físico ou
desejo natural que deveria ser satisfeito. Entendiam que, como Deus criara o
homem como uma criatura sexual, o sexo é apropriado, bom e um desejo natural
que deve ser satisfeito. Em parte, isso é verdade. O prazer sexual é natural e
parte do plano de Deus, mas isso não legitima toda e qualquer forma de prazer
sexual.
Paulo contestou a aplicação desse slogan lembrando os coríntios de que
Deus tem autoridade para limitar e guiar a maneira como vivemos. Declarou que,
apesar da ordem natural de que a comida é para o estômago, Deus destruirá
ambos. Em outras palavras, o fato de Deus destruir um dia a ordem natural como
ela é conhecida mostra que as funções biológicas não determinam as obrigações
morais do homem. Deus é a autoridade suprema para determinar como os humanos
devem se comportar. É o mestre final sobre toda a natureza, e Sua Palavra
regula como os seres humanos devem viver.
Para deixar ainda mais claro, Paulo recorreu a um provérbio que se
assemelhava ao slogan dos coríntios. A imoralidade sexual não pode ser
justificada como uma prática biológica natural porque o corpo humano não foi
feito para a imoralidade sexual, mas para o Senhor, e o Senhor para o corpo. A
revelação de Deus em Cristo deixa claro que a ordem natural disso é muito
diferente do que é evidente a partir da simples observação biológica. Existe
uma relação entre nossos corpos e Cristo. Devemos servi-lO com nossos corpos (Romanos 12:1), e Cristo
redime nossos corpos.
Por seu poder, Deus ressuscitou o Senhor e também
nos ressuscitará (1 Coríntios 6:14).
Paulo lembra seus leitores da ressurreição de Cristo. Deus não
simplesmente ressuscitou o espírito de Cristo dos mortos. Pelo poder do
Espírito Santo (Romanos 1:4), Deus
ressuscitou o corpo de Cristo e, da mesma forma, no dia final do julgamento,
ressuscitará os de todos os crentes. A esperança dos crentes na futura
ressurreição corporal dos mortos demonstra que a ordem natural das coisas é que
os corpos dos cristãos pertencem a Cristo e devem ser usados em Seu serviço.
Vocês não sabem que os seus corpos são membros de
Cristo? Tomarei eu os membros de Cristo e os unirei a uma prostituta? De
maneira nenhuma! (1 Coríntios 6:15)
Paulo lembrou aos coríntios que seus corpos são membros de Cristo,
deixando claro que os crentes não estão apenas unidos espiritualmente a Cristo,
mas também intimamente unidos a Ele em todos os níveis de seu ser, inclusive em
seus corpos físicos, sendo partes de Seu corpo na terra. Os coríntios haviam
descartado a importância da imoralidade sexual com base na ideia de que Deus
destruiria o corpo, e, portanto, o corpo não teria valor (6:13).
Paulo ensinou que os corpos dos crentes são valiosos porque já fazem
parte de Cristo. Seu valor não é apenas eterno, mas também temporal. Na
verdade, como os corpos dos crentes estão unidos a Cristo, ao terem relações
sexuais com prostitutas, envolvem Cristo em suas ações. Essa união física com
Cristo torna inconcebível que a união com uma prostituta seja legítima. Membros
de Cristo não devem se unir a uma prostituta.
Vocês não sabem que aquele que se une a uma
prostituta é um corpo com ela? Pois como está escrito: “Os dois serão uma só
carne” (1 Coríntios 6:16).
Paulo ressaltou o que esses crentes já sabiam: quando um homem se une a
uma prostituta, torna-se um com ela em corpo. Tais relações não são tão casuais
quanto podem parecer. Por essa razão, o apóstolo fundamentou sua afirmação
referindo-se ao Antigo Testamento.
Gênesis 2:24 descreve
Adão e Eva, em união sexual, tornando-se “uma só carne”. Do ponto de vista
bíblico, até mesmo relações sexuais fora dos vínculos do casamento criam uma
união de carne entre os participantes. Como a carne de um crente está unida a
Cristo, quando um crente se torna uma só carne com uma prostituta, ele une
Cristo sexualmente àquela prostituta. Embora isso não comprometa a santidade de
Cristo, destaca a impropriedade dos crentes viverem como os incrédulos.
Mas aquele que se une ao Senhor é um espírito com
ele (1 Coríntios 6:17).
Depois de já ter dito que os corpos dos crentes "são membros de
Cristo" (6:15), Paulo acrescentou que a
união deles com o Senhor os torna um com Ele em espírito.
Fujam da imoralidade sexual. Todos os outros
pecados que alguém comete, fora do corpo os comete; mas quem peca sexualmente,
peca contra o seu próprio corpo (1
Coríntios 6:18).
Paulo iniciou sua conclusão desta seção com uma ordem: Fujam da
imoralidade. É provável que sua fala remetesse ao exemplo de José, que fugiu da
esposa de Potifar (Gênesis 39:7-12). Paulo
instruiu o jovem pastor Timóteo de maneira semelhante (2 Timóteo 2:22). Em vez
de uma resistência fraca à imoralidade, Paulo insistiu na separação do pecado.
Seu conselho se baseava nas características singulares do pecado sexual.
Em contraste com outros pecados, como o abuso de substâncias, a glutonaria e o
suicídio, que têm efeitos prejudiciais ao corpo, a imoralidade sexual é um
pecado único, tanto contra Cristo quanto contra o próprio corpo. As palavras de
Paulo não se referem a doenças e/ou outros danos causados pelo pecado, mas sim
à discussão anterior em 1 Coríntios 6:12-17. Ali, Paulo estabeleceu que os corpos dos cristãos estão unidos a
Cristo, tornando-se membros de Cristo.
A imoralidade sexual viola o corpo ao trazê-lo para uma união indevida
de "uma só carne", desrespeitando a união mística com Cristo. É nesse
sentido que a imoralidade sexual é um pecado singular contra o corpo, violando
o fato mais significativo sobre a existência física dos crentes: que seus
corpos pertencem a Cristo.
Acaso não sabem que o corpo de vocês é santuário do
Espírito Santo que habita em vocês, que lhes foi dado por Deus, e que vocês não
são de vocês mesmos? Vocês
foram comprados por alto preço. Portanto, glorifiquem a Deus com o seu próprio
corpo (1 Coríntios 6:19,20).
Paulo apela mais uma vez ao ensinamento que deu aos coríntios. O corpo
do cristão é templo do Espírito Santo. O Espírito habita nos crentes, tornando
seus corpos um lugar sagrado para a presença de Deus. O fato de o Espírito
Santo habitar nos crentes aponta para a nova natureza de seus corpos, que são
santificados e sagrados, estando em união com Cristo. Quando a pessoa que está
em Cristo se entrega à imoralidade sexual, isso vai contra a nova natureza e
identidade do seu corpo. O cristão foi redimido para boas obras (Efésios 2:10) e,
portanto, deve usar o corpo para boas ações e justiça, não para o pecado.
Paulo lembrou aos coríntios de que eles não mandam em seus próprios
corpos nem têm liberdade para usá-los como quiserem. Paulo insiste que Cristo
os comprou por um alto preço: o Seu próprio sangue. Ele os comprou, corpo e
alma, pagando com o Seu próprio sofrimento e morte na cruz pelos seus pecados.
Porque pertencem a Ele, os crentes não têm o direito de se rebelar contra Ele,
usando seus corpos de maneiras que o Senhor proibiu. Porque essa compra resulta
em redenção e salvação, ela deve inspirar gratidão e obediência, não rebeldia.
Paulo instruiu os coríntios a honrarem a Deus com seus corpos. Em vez de
apenas resistir ao pecado, os crentes devem se ver como templos de Deus,
comprados por Cristo. Porque Cristo morreu por e redimiu os crentes, devemos a
Ele obediência e honra. Devemos procurar maneiras de glorificar a Deus, usando
nossos corpos de acordo com as direções de Deus.
Nota
A menos que indicado o contrário, todas as
referências às Escrituras foram extraídas da “Bíblia Sagrada” —
Tradução NVI.
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